segunda-feira, 29 de junho de 2009

A “Guarda Negra”

A “Guarda Negra”, era uma sociedade secreta criada sob a inspiração de José do Patrocínio, logo após a abolição, com o intuito de defendera Princesa Isabel, “redentora dos escravos”. A “Guarda Negra” identificava-se com a causa monárquica e, mais especificamente com o Gabinete Conservador (que estava no poder em 1888). O auge de sua atuação parece ter sido entre meados de 1888 e os primeiros meses de 1889. Atuava acobertada pelas autoridades policiais, como uma verdadeira força paramilitar, era composta essencialmente por negros, agora livres, dentre os quais muitos capoeiras, conforme nos informa Osvaldo Orico, biografo de José do Patrocínio: “(..) agindo sob os complacentes olhos da policia, a Guarda Negra (...) incluía em seu corpo os melhores capoeiras locais (do rio de Janeiro)”(TROCHIM, 1988: p. 291).
Era principalmente nos comícios republicanos que a presença da “Guarda Negra” se fazia sentir. O ataque mais espetacular da organização parecer ter sido o que ocorreu no dia 30 de dezembro de 1888, quando os propagandistas republicanos, Silva Jardim e Lopes Trovão discursavam no Ginásio da Sociedade Francesa de Ginastas, na cidade do rio de Janeiro. Os organizadores do ato, frente as ameaças recebidas por parte da “Guarda Negra”, recorreram ao chefe da polícia, que alegou não ter condições de garantir a segurança da manifestação. Do lado de fora do ginásio, perto de 500 negros estavam reunidos. De repente, ouviram-se tiros dentro do ginásio e a multidão forçou a entrada. A confusão reinou durante meia hora sem a interferência da polícia , a qual, afinal, decidiu acalmar os ânimos. Varias pessoas ficaram feridas, muitas vitimadas por capoeiras. Na saída do comício ocorreram novos distúrbios quando um republicano inflamado agitou no ar a bandeira francesa, sendo imediatamente atacado por membros da “Guarda Negra”.

Ordem e Desordem

O autor Melo Morais Filho, faz alusão à utilização de capoeiras como capangas eleitorais por parte de políticos do Império. Sobre a importância da atuação dos capoeiras o autor diz: “ ombro destinado escorou-se até há pouco o senado e a câmara para onde, à luz da navalha, muitos dos que governam, subiram”(MORAES FILHO, s/d;1979: p.258). O autor ainda destaca a “poderosa influência” dos capoeiras nos pleitos eleitorais, quando “decidiam das votações, porque ninguém melhor do que eles arregimentava fósforos (isto é, maltas), empenhava urnas, afugentava votantes”(MORAIS FILHO, s/d; 1979: p. 260).
Como podemos observar, a eficiência da organização das maltas de capoeiras, possibilitava-lhes atuar como forças paramilitares no período das eleições. Tal foi o caso da malta chamada Flor da Gente, cujo nome, que evocava a capoeira como uma “criação nacional”, havia sido dado por um parlamentar que a arregimenta como um “terrível exercito eleitoral”(L.C.,1906).
O enlace entre a ordem e a desordem também esta presente na incorporação dos capoeiras às forças regulares, seja devido às praticas de favor, seja, mais comumente em função do recrutamento militar forçado. Também a polícia do Império foi alvo de crítica, que apontavam a cumplicidade entre os agentes da ordem e os capoeiras. As denuncias recaiam sobre a admissão de capoeiras aos quadros da própria polícia, como resultado práticas clientelistas.
No entanto, a ainda o aspecto político dessa omissão da polícia Imperial no que tange aos capoeiras. Sendo que os capoeiras são apontados, em documentação histórica do final do século XIX, como colaboradores dos monarcas contra os republicanos, durante comícios e manifestações públicas realizadas pelo Partido Republicano, antes do dia 15 de novembro de 1889.

A repressão aos capoeiras

Ao longo de todo o século XIX, a capoeira foi constantemente perseguida, sua prática foi tolerada durante todo o período imperial, existindo como contravenção penal até 1890. Só então, sob o recém instaurado Regime Republicano, seria criminalizada.
O castigo dos açoites aplicado aos escravos capoeiras era executado pelas patrulhas policiais no momento da prisão. Em relação aos capoeiras presos cuja a condição jurídica era a de libertos ou de livres, a aplicação de sanções era dificultada pela prática da capoeira ao ser considerada como um crime previsto por lei. Para puni-los os recursos mais utilizados pelas autoridades policiais era o recrutamento militar forçado.
Porém, com a publicação do novo Código Penal em 11 de Outubro de 1890, a capoeira foi finalmente criminalizada. O capítulo que tratava “ Dos vadios e capoeiras” dizia no artigo 402:
“Fazer nas ruas e praças públicas exercícios de agilidade e destreza corporal conhecidos pela denotação de capoeiragem; andar em correrias, com armas ou instrumentos capazes de produzir uma lesão corporal, provocando tumulto ou desordens, ameaçando pessoa certa ou incorreta, ou incutindo temor de algum mal. Pena – prisão celular de 2 a 6 meses. Parágrafo único: é considerada circunstancia agravante pertencer o capoeira a algum bando ou malta. Aos chefes e cabeças se imporá a pena em dobro”(REGO, 1986: p. 292).
É importante ressaltar que a fase mais árdua da repressão aos capoeiras precedeu a própria publicação do Código Penal. Dessa forma, poucas semanas após a instalação do governo republicano, o Jornal diário de Notícias de 10 de dezembro de 1889, informava que o Ministro da justiça e o Chefe do Corpo de Polícia, Sampaio Ferraz, haviam tomado medidas visando o extermínio da capoeiragem. Nos dias subseqüentes a polícia inicia uma onda de prisões e, no espaço de apenas uma semana, 111 capoeiras são detidos.

domingo, 28 de junho de 2009

As maltas

Os capoeiras organizavam-se em grupos, vulgarmente conhecidos como maltas. As maltas espalhavam-se pelo espaço urbano do Rio de Janeiro, apropriando-se simbolicamente do mesmo e impondo-lhe uma outra lógica de ocupação, o que conferia aos capoeiras um poder e uma autonomia que iam contra os pressupostos básicos da hierarquia escravista. Segundo o cronista francês Emille Allain, que visitou o Rio de Janeiro em 1886, que acusou os capoeiras de serem “uma mancha na civilização da grande cidade”, quase todas as pessoas de cor estavam organizadas em maltas, e divididos em dois ou mais grupos rivais.
Mello Morais Filho, em seu artigo “Capoeiragem e capoeiras celebres”, escrito no final do século passado nos forneceu dados um pouco mais precisos, afirmando que as maltas eram compostas de “ africanos, que tinham como distintivos as cores e o modo de botar a carapuça, ou de mestiços (alfaiates e charuteiros), que se davam a conhecer entre si pelos chapéus de palha ou de feltro, cujas abas, reviravam segundo convenção” (MORAIS FILHO, s/d; 1979: p. 258). Entretanto, além dos africanos, as maltas contavam também com a participação de pessoas brancas (inclusive alguns de origem européia).

A heterogeneidade étnica e social dos capoeiras

No período compreendido entre as primeiras décadas e metade do século XIX, a capoeira parece configurar-se como atividade eminentemente escrava. Observemos a existência de decretos que puniam os capoeiras, entre os anos de 1821e 1834, o encarceramento, cujo motivo fosse a prática da capoeira não era feita numa prisão exclusiva para escravos. Sendo que “capoeiras”, era a designação dada aos negros que “viviam no mato e assaltavam passageiros”.
O “embranquecimento“ da capoeira é dado a partir de 1880 (BRETAS, 1991: p. 242), quando é verificada além da inserção de indivíduos livres e libertos, a forte presença de capoeiras brancos, dentre os quais muitos europeus. Sendo assim a capoeira deixava de ser restrita aos negros e pobres e estendia-se aos brancos e àqueles que pertenciam a classes mais abastadas. O caso mais ilustre dessa ligação entre a capoeira e a elite da época é o de José Elísio dos Reis, conhecido como Juca Reis, filho do conde de Matosinhos – figura notória da colônia portuguesa de então - cuja prisão constituiu um dos episódios mais famosos de repressão à capoeiragem, pois quase gerou uma crise ministerial na recém-proclamada República. Passou a existir uma contradição diante da criminalização da capoeira e do significativo número de pessoas livres e brancas envolvidas com esta prática. A figura do negro deixava de ser um “problema social” e transformava-se em um “problema nacional” enquanto a capoeira que vivia um “embranquecimento” simbólico passava por uma inversão de valores.
A crescente adesão de brancos à capoeira ocorreu no interior de um processo que oscilava entre a repressão, enquanto um instrumento de luta e resistência negro numa sociedade escravista e a apropriação de seu uso como “esporte” e “expressão do nacional”. Logo evidenciamos a heterogeneidade étnica e social acerca dos capoeiras cariocas do século XIX.

As transformações que abragem o Negro e Capoeira

A existência da capoeira parece remontar aos quilombos brasileiros da época colonial, quando os escravos fugitivos, para se defender, faziam do próprio corpo uma arma. Embora sempre perseguida ao longo de todo período imperial, foi apenas em 1890 que a prática da capoeira se constituiu como crime, permanecendo como tal até a década de 1930, quando teve sua prática liberada pelo Estado Novo.
O significado social dessa pratica cultural de raízes negras se modifica, conforme se operam mudanças no lugar social do negro no interior da sociedade brasileira. Original mente considerado como principal entrave ao “progresso nacional”, em virtude de sua “inferioridade atávica” o negro começará, pouco a pouco, a ser enaltecido como fator de originalidade nacional.
Em 1878 a policia do Rio de Janeiro, imbuída de pressupostos evolucionistas de sua época, considerava a capoeira como uma “doença moral que proliferava em nossas civilizadas cidades”. Porém, algum tempo depois, por do inicio do séc. XX, alguns intelectuais, preocupados com a própria viabilidade da nação brasileira e informados pelos princípios da medicina higienista lançavam a ginástica como meio profilático “ para a regeneração” da raça (fiéis, portanto aos mesmos paradigmas científicos que a policia acima citada), viam na capoeira uma “luta nacional” e uma “excelente ginástica”, cujo ensino deveria ser ministrado “nos colégios, quartéis e navios” de todo país.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Introdução à Roda de Capoeira

No livro de registros Forma e Expressão, volume primeiro, do Instituto Histórico e Artístico Nacional / IPHAN consta que a Roda de Capoeira é um bem cultural com sua manifestação em todo o território brasileiro e em mais de 150 países. Na sua certidão diz: “A roda de capoeira é o instrumento estruturante dessa manifestação, espaço e tempo onde se expressam simultaneamente o canto, o toque dos instrumentos, a dança, os golpes, o jogo, a brincadeira, os símbolos e rituais da herança africana, recriados no Brasil. Profundamente ritualizada, a roda de capoeira congrega cantigas e movimentos que expressam uma visão de mundo, uma hierarquia e um código de ética que são compartilhados pelo grupo. Na roda de capoeira se batizam os iniciantes, se formam e se consagram os grandes mestres, se transmitem e se reiteram práticas e valores afro-brasileiros."



Neste blog, não há outra intenção senão levar nossos leitores ao mundo da CAPOEIRA, com todos os seus rituais, formas e influenciadores da identidade nacional do nosso Brasil.

Esperamos que gostem...

Boa leitura!!!